Sentia-se pronta para viver um grande amor, desde o dia que começou a andar de salto e usar saias. Assistia filmes antigos, absorvia aquele complexo de Greta Garbo com muito gosto e se via diva de sua própria história. Imaginava-se ao lado de um homem perfeito, um amor perfeito, mocinha e mocinho feitos um para o outro. Ele metade dela, ela metade dele, metades da laranja, tampa da panela e todos os outros clichês possíveis de amor que via na TV, no cinema e nos livros.
Ensaiou com cuidado todas as palavras que iria dizer, se via em flashs de cenas de amor e beijava sem pudor algum o vazio. Visualizava com precisão o leito onde tudo aconteceria. E repetia inúmeras vezes:
- Te amo e te amo muito e não te amo por pouca coisa, pois assumo que só ser amado por mim já é algo problemático e custoso.
Mas não saía da idealização. Até as brigas de amor eram forjadas, beirando mesmo uma esquizofrenia totalmente consciente. Deixou de dar oportunidade a si própria e aos homens que surgiam no seu caminho, pois precisava estar pronta para viver o seu grande amor, a sua grande estréia. O seu palco iluminado onde o amor vencia sempre.
O tempo, implacável, passou. E a lucidez da maturidade a fez perceber que não queria um homem. Só queria algo com que sonhar.
Passou diante de uma praça e viu um casal aos beijos, o estranho apertava tanto a cintura da moça que parecia que ia lhe partir ao meio. Sentiu nojo. Queria glamour e não contato físico ou calor humano.
Não sabia fazer amor.
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